sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

SHAKESPEARE NA CRACOLÂNDIA - Marcelino Freire

Escrever ou não escrever? É pouco o que eu escrevo. Diante do que li hoje naFolha de S. Paulo. Em reportagem sobre a Cracolândia. Se tivesse sido eu o autor das frases. Ali faladas. Diriam com certeza. Como esse escritor viaja. Cachimba-se na maionese. Pega pesado. Tipo. Quando alguns de meus personagens soltam a língua. Esbravejam. Defendem seu lar. Custe o que custar. Brigam por um sofá. Uma mobília. Pedem disciplina. Respeito. Tratam bem suas visitas. Quer um pouco de Coca? A gente tem. Umildemente. Tem. Ah. Meu caro. A ficção é que não está com nada. Diante da fala do povo. Morto. Zumbis zangados. Expulsos de suas moradas. Covas rasas. Porém honestas. A ficção dá pena. É uma merda. O que fazer? Se correr a polícia pega. A gente não pode fumar. Não pode dormir e nem descansar. Está difícil. E agora? Em Higienópolis o pessoal já está ligado. Eles estão subindo. Essa gente diferenciada está vindo para cá. Aqui é muito mais sossegado. Argumenta um dos usuários. A Cracolândia. Essa. Ah. Já está com seus dias contados. Aquele lugar não tem mais futuro. Se pagarem minha passagem. Juro. Eu volto para Paraíba. Para a sua terra. Com a ajuda de Nossa Senhora Aparecida. Lá construirá o seu casulo. Seguro. Um lugar para uma rede. Levantará uma parede onde possa escrever. “Você conquistou meu coração”. Ou divulgar a obra de Shakespeare. “O mundo é um palco”. Ser ou não ser? Não vê? Será sempre esta a grande questão. Em tempo: a foto aí de cima, que saiu na primeira página da Folha, é de Alessandro Shinoda.


fonte: http://marcelinofreire.wordpress.com/2012/01/06/shakespeare-na-cracolandia/ 

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